OLHAR DE DENTRO

Um amor barato. Uma sexualidade encaixotada. Muitos parabéns por cumprir seus papéis sociais com sucesso. Os objetos explicitamente cafonas de Roberta Stubs são o deboche da Drag quando quebra o salto no meio da performance musical. Despudoradamente ordinária, a matéria-prima deste ambiente de coisas vem do mercado popular e faz parte do cotidiano de milhões de pessoas, da China à Maringá. Velas de casamento, princesas, personagens de HQ e órgãos genitais são a farsa e a projeção de desejos, sonhos e espelhos do consumidor. Por sua vez, esse conjunto traz uma faceta da infantilização dos adultos e a sexualização das crianças por agendas consumistas de produtos fundamentais que nunca precisamos antes.

 

Roberta é artista, Doutora em Psicologia, Arte e Gênero, e docente de Artes Visuais na Universidade Estadual de Maringá. Ela se interessa em desconstruir códigos de normatividade e lida com signos idealizados, tão cristalizados como banais, de masculinidade, moral familiar e arquétipos de sucesso. Inocentes e populares velinhas decorativas de festa são manipuladas, transformadas em totens de sonhos perdidos, meias-verdades, frustrações que afloram e desejos que transcendem dogmas. É do humano o jeito patético ou lascivo das pequenas figuras esgarçadas, congeladas em blocos de tempo-espaço emanando uma grande solidão.

 

Este projeto não é uma obra autobiográfica, e os objetos não se referem ao expurgo de traumas ou frustrações da autora, nem a uma militância de gênero e sexualidade específicos. Sua questão é feminista interseccional, que pensa problemáticas da mulher, biológica ou não, e também faz crítica à masculinidade/macheza como identidade construída e dominante. Esta exposição de pecinhas tão derretidas como despudoradas é uma irônica referência ao mercado de consumo das massas, anônimo e multitudinário, que conecta as pessoas pelas lojinhas baratas de varejo. Roberta Stubs vai além de uma abordagem binária de gênero ou classe social, e com a operação de exibir materiais tão mundanos como banalizados, o produto comum das prateleiras erotiza-se na galeria.

 

Alguns dos objetos de gracejo erótico lembram a obra da carioca Márcia X (1959-2005), que criava instalações e ambientes lúdicos, irreverentes, com falos de borracha customizados, como na série Fábrica Fallus (1992-2004). Roberta resgata algo desse espírito humorado e kitsch, mas também aponta para um lugar mais crítico, comentando o imaginário coletivo de desejos acalentados por artifícios, em uma cultura individualista, ainda machista e violenta.

 

As peças agrupadas por Roberta Stubs são alegorias de rituais e temas da vida em sociedade. Esta individual é uma proposta de comunicação fácil, bem mais popular que erudita, embora aponte para direções de reflexão sobre um mundo cheio de coisas que nos seduz e compra, agora cada vez mais virtual e em re(de)composição política. Olhar de dentro é uma festa vazia como a pandemia exige, que derrete de vontade de espaço cheio, ardendo de medo de perder o toque do outro.

 

 

Daniela Labra

Daniela Labra é curadora de artes visuais, pesquisadora e crítica de arte. Atua principalmente nos temas: arte brasileira, processos históricos e estéticos latinoamericanos, performance arte, performatividade, arte e política. Fundadora da Plataforma Zait de Estudos em Arte Contemporânea; Professora do Node Center. Reside e trabalha entre Berlin e Rio de Janeiro.